Sonho americano fabricado na China
Por dentro da Walden Guitars: os segredos dos violões asiáticos. Por: Daniel Neves e Miguel De Laet [ver pdf]
Violões chineses são todos iguais? Tome cuidado com a resposta. Muitos têm preconceitos em relação a produtos oriundos de países asiáticos sem, no entanto, conferi-los. A Música & Mercado conversou com Jonathan Lee, ex-luthier e cofundador da CFox, que se juntou à KHS para fundar a Walden Guitars. Jonathan é um dos responsáveis pelo desenvolvimento dos violões da marca e atua como gerente da divisão de instrumentos de cordas da KHS (veja quadro na p. 47). Ele revelou à M&M todo o processo de desenvolvimento e fabricação de violões em uma indústria asiática, as razões de se fabricar na China e, ainda, as suas inspirações para criar novos produtos.
Por que fabricar violões na China?
Há muitas razões para fabricar violões na China. Foi uma escolha natural para a Walden. Com média de salários mais baixa do que em outras partes do gabarito, máquina de xação ou molde que asseguram a consistência do resultado. A maior parte do trabalho é feita manualmente, com máquinas padrão conhecidas na marcenaria. Algumas automatizadas são usadas para proporcionar um resultado mais preciso, como uma máquina de entalho da escala, ou quando uma operação é muito pesada para um empregado.
Esses processos são diferentes do que é feito em empresas asiáticas?
Se olhar a história da confecção de violões asiáticos, verá que a maioria das fábricas atuais remete aos métodos japoneses dos anos 60, quando produziam essencialmente alternativas de baixo custo de instrumentos fabricados nos EUA e na Europa.
Quando os custos de mão de obra aumentaram no Japão, esse sistema de construção de violões mudou para a Coreia e Taiwan, mais tarde para a China e agora para a Indonésia. Muitas indústrias asiáticas ainda fazem “objetos com forma de violão”. Isso se deve a uma falta da compreensão dos fundamentos do projeto, da fabricação do violão, ou devido ao modelo comercial de produzir instrumentos pensando no que é mais barato possível — que leva em consideração a escolha de materiais ou de métodos ruins. Do ponto de vista do produto — afora as diferenças processuais —, todos os violões da Walden possuem um braço com tensor de ação dupla, característica incomum na fabricação asiática.
A Walden Natura é a única linha de instrumentos com acabamento em verniz nitrocelulose, que vem sendo reconhecido pelas suas propriedades sonoras excelentes comparadas ao poliuretano, acabamento mais comum usado na Ásia.
Como surgiu a ideia de reproduzir em uma série de violões clássicos inspirados nos grandes modelos criados por Torres e Hauser I?
Em 2004, na convenção americana de luthiers, nos EUA, estive em um seminário apresentado pelo luthier Je rey Elliot. O tópico: Restaurando o Torres de Tárrega 1888. Esse violão tinha sido gravemente dani cado e foi restaurado de forma brilhante por Je . Ele apresentou plantas e as medidas para ilustrar a parte histórica e tivemos o privilégio de ouvir uma audição com o instrumento naquela noite. Na verdade, isso me inspirou. Assim, comecei a pensar em ajustes que poderíamos fazer no modelo clássico da Walden. Tive também a oportunidade de rever desenhos de dois violões construídos para Andrés Segovia: o Manuel Ramirez de 1912 e o Hermann Hauser I de 1937. Como um pintor que pratica as técnicas dos mestres, decidi que este era o lugar para começar o desenvolvimento e a melhoria do violão clássico da Walden.
Como nasceu a Walden Guitars?
A Walden Guitars surgiu em 1996 entre uma pareceria com a ofi cina de lutheria CFox, cofundada por Jonathan Lee e Charles Fox, e o KHS Group. Sua fábrica fi ca em Lilan, na China, bem próximo a Pequim. Todos os violões Walden são feitos em uma fábrica própria, exclusividade da maioria das marcas detidas pela KHS. Todos os projetos originais e as especifi cações dos violões Walden foram criadas sob consultoria da CFox.
Todo instrumento de qualidade é fabricado por meio de processos similares para conseguir objetivos similares, sejam eles produzidos em uma lutheria ou em fábricas de grande escala.
O processo de manufatura da Walden reproduz especi camente a minha experiência como um luthier somada às técnicas usadas nas fábricas de grande produção dos EUA, como Martin e Taylor. Nosso o condutor é respeitar os elementos do processo de construção do violão que são essenciais na produção de instrumentos com estabilidade e sonoridade excelentes, sabendo que não podemos comprometer a qualidade de forma alguma e também o que devemos criar em instrumentos nessa faixa de preço.
Em nossos quatro grandes departamentos — fabricação das partes, junção corpo-braço, acabamento e setup —, cada processo tem seu próprio mundo, permite a criação de um instrumento de alto padrão com menor custo. A história chinesa tem tradição cultural e artística rica e profunda, que ajuda na habilidade de estar atenta aos detalhes ao confeccionar violões. A KHS está sediada em Taipei, Taiwan, e como todo o seu pessoal fala chinês, as barreiras culturais e de idioma foram superadas, minimizando problemas que poderíamos encontrar com o funcionamento de uma fábrica na China. Além disso, facilita a distribuição internacional em conjunto de outras marcas da KHS: Mapex Drums, instrumentos Jupiter, Hercules Stands e Majestic Percussion. Todas as fábricas da KHS são próximas e isso possibilita a combinação de seus produtos para serem expedidos em conjunto,
Por dentro do som
“O tampo é o elemento mais importante que contribui para o som do violão. No tampo, temos os graves. As várias vibrações das laterais e do fundo infl uenciam a qualidade tonal da voz do violão, particularmente as frequências mais altas/harmônicos mais elevados, mas quando é muito ‘fl exível’, eles podem sugar a energia da parte superior e afetar negativamente o som e a entonação. A estrutura harmônica do tampo do modelo clássico da Walden permanece completamente fi el aos projetos de Torres/Hauser [modelos clássicos considerados os melhores do mundo]. Em termos de construção da entonação e do som de um instrumento, as dimensões e os ângulos da estrutura harmônica são somente uma parte do enigma. O Torres 1888 teve as espessuras do tampo muito baixas, como 1,2 mm na borda e 1,5–2,0 mm sob a ponte. Isso é surpreendente quando você considera que um tampo típico tem cerca de 2,5–2,8 mm. A maneira de conseguir isso é encontrar materiais excepcionais, características altas de rigidez/peso, que permitem que se afi ne a parte superior sem perder a rigidez para resistir à tensão das cordas. Com esse baixo peso, as cordas não precisam trabalhar muito para estimular a vibração da parte superior: a energia é representada como o som.”
— Jonathan Lee, gerente da divisão de instrumentos de cordas da KHS
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